No Fim da Linha
Lagos - 2022
A última estação a poente da linha ferroviária do Algarve é a de Lagos. Foi inaugurada a 30 de julho de 1922 e a chegada das primeiras carruagens trouxe a promessa de desenvolvimento e prosperidade local. Elas permitiram o escoamento dos produtos regionais e o acesso mais rápido a destinos longínquos. Um século passado, a realidade é diferente. O mar tem sido a fonte de riqueza da zona, mas de formas distintas ao longo do tempo. Outrora de importância fundamental para a região, a indústria conserveira esvaneceu e a atividade económica principal passou a ser o turismo. O progresso desejado trouxe imensos estrangeiros, comércio, novos meios de transporte e novos desafios.
A população duplicou, concentrando-se na cidade e as necessidades de mobilidade alteraram-se.
A estação original era composta por vários edifícios que foram perdendo funcionalidade ao longo do tempo. Na viragem do século o complexo ferroviário de Lagos sofreu remodelações que resultaram na construção de um novo terminal a 150 metros da estação primitiva e o tráfego foi transferido para a nova estação em 2003. A estação antiga encerrou definitivamente em 2006.
Os vários edifícios do complexo original perduram, mas exibem as marcas da passagem do tempo e de algum vandalismo. O edifício da estação primitiva foi circundado por tapumes para evitar o extravio de azulejos e a degradação continuada. Nas traseiras, as portas e janelas do antigo dormitório para os funcionários foram tapadas. No ano de comemoração do seu centenário a estação original foi vendida a privados e está a ser recuperada. Existe um projeto para lhe dar novas funções e valorizar a sua história.
Ao lado da estação atual existe uma placa giratória e um enorme armazém em forma de leque, antiga cocheira para locomotivas. Sobre o seu interior a população especula: “Já me disseram que ali dentro há carruagens antigas”. Quem já entrou confirma: “são muito bonitas.” A transformação desse espaço em núcleo museológico está prevista há mais de vinte anos, mas as portas permanecem fechadas e nem para fazer uma fotografia do interior o município autoriza que se abram.
O Movimento de Cidadania Mais Ferrovia foi apresentado publicamente em 2018 e “é o único movimento de cidadãos do Algarve constituído para defender e valorizar a ferrovia”. Considera que, sendo uma infraestrutura imprescindível da mobilidade e da coesão territorial e social na região, “o transporte ferroviário presta um mau serviço às populações”. Em 2020 desenvolveu a proposta “Estratégia para a Ferrovia do Algarve 2050” na qual reclama a necessidade de se realizarem investimentos que vão muito além do processo de eletrificação da linha.
Defende que é preciso ultrapassar limitações estruturais, tais como o facto da linha do Algarve ser, em grande parte, de via única provocando constrangimentos em termos de velocidade e frequência. Ambiciona a chegada de um comboio de alta velocidade numa nova linha e propõe a aproximação da ferrovia existente às pessoas, com a existência de mais paragens, “novo tipo de comboios, mais ligeiros, adaptados ao transporte suburbano” e mais frequentes, assim como a articulação com outros meios de deslocação.
O movimento realça que a ferrovia oferece oportunidades únicas de desfrute da paisagem e do património. Lagos é um bom exemplo disso: o comboio percorre todo o areal da Meia Praia ao lado do mar, mesmo antes de chegar à cidade. Muitos lacobrigenses até opinam que a presença da linha tem ajudado a preservar a praia.
Gunther é alemão, tem 82 anos e a primeira vez que veio a Portugal foi de comboio, em 1984. Passou por Lisboa e saiu em Lagos. Ainda se lembra da estação antiga e dos comboios velhos. Recorda com graça o barulho que faziam: “tum-tum, tum-tum”. Agora viaja em 1ª classe e considera as carruagens portuguesas boas e modernas. Desta vez veio de férias com filho Tim e confessa que, apesar de visitar o país duas ou três vezes por ano, cada vez viaja menos de comboio.
João Manuel da Rosa Viegas tinha 28 quando mudou da terra onde nasceu, Monte Gordo, para Lagos. Ainda se lembra de ter pago 32 escudos. “Nessa altura serviam-se todos do comboio”. A mudança foi ditada pelo coração e pela pesca:
“A miúda morava aqui e aqui trabalhava-se mais”. Aos 79 anos continua a ir todos os dias para a Lota porque não tem feitio para ficar em casa.
Possui o “cartão de tropa dos Combatentes” que lhe permite ter descontos nas viagens, mas mesmo assim usa pouco: “o comboio não dá sempre à hora que a gente quer” e a última vez que andou “foi há quatro anos, fui a Faro a uma consulta com a mulher”.
A “miúda” com quem João casou há 55 anos chama-se Rosa Natália: “Trabalhava na fábrica de conservas do Pimenta” e só deixou de utilizar o comboio quando comprou carro. Ela salienta as mudanças que o tempo trouxe: antigamente “soldados iam para Lisboa e vinham, agora é mais estrangeiros. Lembro-me das automotoras que tinham bancos de madeira envernizada”. Sobre o encerramento da estação antiga diz: “deu pena, para mim aquilo é histórico. A sala onde se compravam os bilhetes estava forrada de azulejos. Coisa linda, linda, linda!"
João tem 25 anos e diz recorrer ao comboio por ainda não ter carta de condução. Viaja para Portimão, Guia ou Faro para comprar coisa que não encontra em Lagos, tais como “ferramentas e certas roupas”. Afirma que a linha “é um pouco desadequada. Há poucas paragens e as que existem ficam longe das praias”.
O seu amigo André de 19 anos (à esquerda) representa a maioria dos jovens no que diz respeito a ter pouca experiência de utilização do comboio: “andei duas vezes, quando tinha uns 6 anos”.
Ambos praticam desportos náuticos e atravessam diariamente a linha férrea situada entre o Windsport Center da Meia Praia e o mar: “dizem que é perigoso, mas nunca tivemos problemas”.
Produção
Questão Repetida - Associação Cultural
Apoios
Direção-Geral das Artes
Município de Lagos
Infraestruturas de Portugal
Direção Regional de Cultura do Algarve
Região de Turismo do Algarve
Inaugurada no dia 27 de julho de 2022, junto ao Complexo Desportivo de Lagos, a exposição foi transferida no fim de 2022 para a zona do Anel Verde no centro da cidade, onde permanece.