Varinha Mágica​​​​​​​
Fotografia e texto de Telma Veríssimo - Ilustração de Mónica Catalá
Almádena, Bensafrim e Odiáxere - 2024
Manuel Borba 
Nasceu na Carrapateira em 1936

Manuel Borba tinha sete anos quando veio viver para Almádena, a terra de origem da sua
mãe. Aos onze anos, depois de concluir a quarta classe, começou a ajudar o pai no campo.
Entrou para a Marinha com vinte anos e aí fez carreira até se reformar, em 1993.
Foi para a guerra do Ultramar em 1962 e, a bordo do navio Pedro Nunes, onde fazia as
cartas hidrográficas na zona da Guiné-Bissau, conheceu o arquipélago dos Bijagós: “Foi a
coisa mais linda que eu já vi. Na passagem do navio pelas ilhas víamos hipopótamos e
macacos.” Nunca enjoou: “Eu dava-me bem com o mar.”
De regresso a Portugal, passou por S. Domingos de Rana, Foz do Arelho e Alcochete. Em
1973 foi destacado para Lagos. Nessa altura voltou a residir em Almádena. Passados vinte
anos, deu início à fase mais importante da sua vida: “Assim que me reformei fui convidado
pelo Partido Socialista para encabeçar a lista para a junta de freguesia da Luz.” Aceitou o
convite, concorreu e ganhou. Cumpriu quatro mandatos “duas juntas do PS, as outras PSD” e
ocupou outros cargos políticos até 2021. Fruto da sua obra, é o Centro Social de Almádena.
Inaugurado em 2007, este edifício é o coração da vida cultural local.
Continua preocupado com os problemas da terra tais como a falta de habitação, a ausência
de mão de obra ou a poluição da ribeira provocada pela ETAR e critica a falta de
investimento: “ A câmara tem de olhar mais pelas aldeias.”
Se tivesse uma varinha mágica, gostaria de poder “conhecer o que é verdade e o que é
mentira. Eu fazia com que os políticos respeitassem os programas, cumprissem a palavra e
sobretudo teria muito cuidado com os extremos.”
Luís Barros
Nasceu em Silves em 1960

Luís Barros tinha dez anos quando veio para Almádena, pois o pai era daqui. Terminou o
décimo segundo ano com dezanove anos e arranjou o primeiro trabalho de verão no Hotel
da Salema. Foi ajudante de carpinteiro de cofragens, antes de entrar para o exército em
1980. Quando saiu, dois anos depois, trabalhou numa discoteca no Parque de Campismo de
Vale Verde. Durante um ano ajudou o barman e depois foi disc-jockey. Ganhou o gosto e
ficou a pôr música até 1990. Entretanto, passou pela discoteca Privê e em 1996, decidiu
abrir o bar Six em Almádena. Em 2017, mudou para outro espaço que era de um primo, mas
manteve o nome do bar.
No ano seguinte passou a fazer parte do executivo da junta de freguesia da Luz, a convite do
atual presidente. Considera que ”a experiência tem sido boa”, mas sente que o maior
problema é o Facebook e o Instagram: ”Há um polícia em todas as esquinas.” A pressão das
críticas desmotiva-o. Explica que o orçamento é limitado e assume que gostava de poder
fazer obras mais estruturantes: arranjar caminhos e estradas.
Sobre Almádena, diz que é uma “terra pacata, mais que as outras” e não se imagina noutro
sítio: “Tenho aqui os meus conhecimentos todos de cinquenta anos.” Reflete sobre o que
tem mudado: “Almádena cresceu muito, havia carros de bestas, um tanque para lavar roupa
e outro onde os animais bebiam. Havia muitas motorizadas e poucos carros. Agora há muita
gente de fora que vem trabalhar na construção: brasileiros, nepaleses, bengalis, indianos. Os
britânicos ficam, integram-se com facilidade, não falam a língua, são lazy, mas participam
em tudo, cumprimentam toda a gente, são reformados, querem uma vida mais pacata. Agora
 há muitos carros e muita procura de casas.” Lamenta a falta de escolas e infantários e
afirma que “gostava de tirar a ETAR daqui para fora.”
Como hobbies, tem a fotografia e o BTT. Chegou a ajudar na organização de eventos de
ciclismo coordenados pela Associação De Amigos de Almádena: “ciclismo é um dos meus
desportos favoritos a seguir ao futebol. Fizemos 10 BTT seguidos. Ajudámos a fazer o BTT de
Lagos. Chegámos a ter aqui trezentas e cinquenta pessoas a andar de bicicleta.” Ficou triste
por ter terminado.
Se tivesse uma varinha mágica, “acabava com a ganância das pessoas pelo poder. O que
causa mais problemas no mundo são os lobbys. Queria que os poderosos fossem como eu
para pensarem como eu, assim, já não havia guerras.”
Elizabeth Roberts Honey
Nasceu em Manchester no Reino Unido, em 1977

Elizabeth começou a vir de férias para o Algarve aos dezasseis anos, quando os pais
compraram uma casa na Praia da Luz.
Na universidade, estudou drama e música. Quando começou a trabalhar em empresas de
recursos humanos, manteve a música em segundo plano. Foi bailarina, cantou em bandas e
escreveu música.
A certa altura, esteve envolvida num projeto de trabalho muito grande, em Londres, e para
aliviar a imensa pressão que estava a sentir, decidiu vir de férias. Foi então que conheceu o
marido, também inglês, jardineiro e amante da natureza. Casaram em Portugal em 2007 e
viajaram pelo mundo durante dois anos, até Melbourne na Austrália.
De regresso, resolveram ficar no Algarve. Nessa altura, Elizabeth abandonou as artes por
algum tempo: “Estava triste porque não era o meu mundo e prometi a mim mesma que
nunca deixaria de ser criativa.”
Entretanto, pediram-lhe para criar um clube de drama e outro de canto. Há onze anos,
decidiu avançar apenas com o grupo de coro, que tinha sido iniciado na Luz e, mais tarde,
passou a reunir no Centro Social de Almádena. O Western Algarve Community Choir é um
grupo muito eclético, composto por membros de dezasseis nacionalidades, na sua maioria
reformados. O coro mudou ao longo dos anos. Fizeram concertos muito diferentes e
chegaram a convidar coros de outros países para atuarem com eles. No Natal, seguem uma
tradição do Reino Unido e cantam nos supermercados em Lagos. A exposição pública é um
desafio para o grupo: “É um sentimento muito especial aprender canções e ir para a rua
cantá-las em frente às pessoas. É assustador, mas não nos levamos muito a sério, podemos
rir e divertir-nos.” O grupo é muito importante para Elizabeth: “O meu coro é outra família
para mim.”
Profissionalmente, é designer de Interiores e, nos tempos livres, pratica padel, uma
ocupação que lhe tem proporcionado muitas amizades: “A música e o desporto colocam as
pessoas em contacto. Para ser justa, no Reino Unido seria pouco provável ter tantos amigos
que não são da nossa cidade.”
Sobre a povoação onde ensaia com o grupo, afirma: “É uma comunidade adorável. O Centro
Social é muito acessível, não importa a nacionalidade. É agradável e amistoso, une as duas
comunidades. É o coração de Almádena.” Regressar ao Reino Unido está fora de questão:
“Nós adoramos Portugal e os portugueses. Aqui é a nossa casa. Nunca vou voltar.”
Se tivesse uma varinha mágica, “desejaria que pudéssemos ter sido pais, teria sido o mundo
perfeito.”
Maria Cremilde e António Francisco conheceram-se no princípio dos anos 80 e casaram
pouco depois. Viveram na Mexilhoeira Grande durante cinco anos, antes de mudarem para a
casa onde ela nasceu e que recebeu de herança dos avós paternos.

Maria Cremilde Sousa Dias
Nasceu em Almádena em 1948

Maria Cremilde terminou a quarta classe com doze anos e, nos anos seguintes, foi aprendiz
de costura. Aos vinte e poucos, começou a trabalhar na indústria hoteleira, como
empregada de quartos, apenas no verão. Trabalhou vários anos em diversas empresas.
Casou aos trinta e quatro e teve uma filha. Nessa altura, deixou de trabalhar fora para cuidar
dela e, em casa, dedicou-se aos arranjos de costura.
Quando o Centro Social abriu, uma senhora ofereceu-se para ensinar artes decorativas.
Maria Cremilde aderiu às aulas desde o início e, desde então, tem explorado várias técnicas
e materiais: ponto cruz, croché, cartonagem, azulejos, gesso. Pratica no Centro e em casa:
“Já temos feito exposições, sempre no Centro. Agora estou a fazer umas coisas para oferecer
ao Centro, para o ano, no Baile da Pinha.” Trata-se de um baile de Páscoa onde usam uma
pinha de madeira decorada com muitas fitas numeradas: “Cada par tira uma fita e há
prémios para cada uma. O prémio principal sai na fita que abre a pinha. Quando era moça, já
nesse tempo faziam, no Sociedade Recreativa de Almádena. Esse salão estava inscrito na
Sociedade dos Espetáculos. A direção envelheceu e acabou, ainda era solteira.”
O Centro Social é também o ponto de encontro com as amigas. Aí passam as tardes de
domingo a conversar.
A filha, o genro e os dois netos vivem do outro lado da rua e Maria Cremilde gosta muito dos
vizinhos que chegaram há vinte anos: “O meu vizinho inglês não pode ser melhor pessoa.
Tem uma horta, cria galos e galinhas, que me oferece para eu comer.”
Ao ser indagada sobre o que faria com uma varinha mágica, hesita: “Foi coisa que nunca
pensei.. Gostava de ganhar uns tostões para arranjar a minha casa que está muito velhinha,
toda ela precisa muito de obras. Com esta idade, já não temos muita ambição.”

António Francisco Joaquim
Nasceu em Sabóia em 1944

António Francisco conta: “A primeira vez que calcei botas foi aos onze anos para fazer o
exame da quarta classe.” Teve dificuldade em adaptar-se: “Os pés estavam à larga, as botas
faziam ruiduras, por isso, andava descalço, com as botas às costas.”
Saiu de casa aos dezasseis anos: “Eu cheguei a Lisboa, uma pessoa que não tinha cultura, eu
não sabia telefonar. Levei cento e oitenta escudos. Ia às pensões mais rascas. Um quarto
com dez, quinze camas se fosse preciso. Andava já com fome. Mandava vir uma sopa,
migava um paposeco para dentro e comia.” Chegou à Siderurgia Nacional com uma mala de
cartão: “Quando recebi o primeiro dinheiro, foi uma festa.” Recorda que ”eram milhares de
pessoas a trabalhar nos altos fornos. Ao sol, pá e picareta.” Esteve lá quase um ano.
Para encontrar um irmão mais velho que estava a trabalhar no ferro em Lisboa, diz: “Escrevi
cartas para a família.” Foi viver e trabalhar com ele em Marco do Grilo.
De regressou ao Algarve, com dezoito anos, trabalhou como servente de pedreiro, ferreiro e
carpinteiro.
Entrou para a tropa em Beja, em 1965. Tirou a especialidade de escriturário em Leiria.
Esteve em Angola durante vinte e seis meses: “Fui privilegiado. Os lugares têm de
 ser preenchidos, fui para a intendência, para um depósito avançado de víveres em Negage,
 distrito de Carmona. Às vezes não tínhamos a noção do perigo que atravessávamos. Tirei a carta
 profissional em Angola. Podia-se conduzir tudo, menos camionetas de carreia com passageiros.”
Voltou em 1967. Foi motorista e carpinteiro. À medida que o trabalho apareceu, passou por
várias terras: Santa Clara, Lisboa, Bombarral, Torres Vedras, Barreiro. Entretanto, casou e
descasou. O destino trouxe-o de volta ao Algarve. Veio fazer um acrescento nas Adegas de
Lagos, e acabou por ficar: “Eu vivi em Lisboa nos anos 60 e, quando lá voltei, vinte anos
depois, eu não me sentia lá bem. Estava tudo tão modificado, eu sentia-me oprimido ali.”
Nos últimos anos, foi carpinteiro por conta própria.
Assentou em Almádena: “Para já gosto de estar aqui, é um sítio sossegado. Está duas ou três
vezes maior do que quando cheguei aqui. Não havia o Centro Social, não havia igreja,
mercado, praça. Quando precisava de qualquer coisa, íamos a Lagos. Para mim a melhor
coisa é o Centro Social: tem bailes, concertos, festas para crianças.”
Reformou-se em 2007. Agora trata da horta e reflete sobre a vida: “Estou desiludido com o
caminho que o mundo tem levado.” Considera que os maiores males “são o armamento, a
droga e a pornografia.” Despreza a televisão porque “induz o consumo de coisas que não
fazem falta” e defende que é necessário haver uma reaproximação à natureza. É muito
crítico da Igreja: “Sou ateu. Uma das coisas piores que o Salazar fez foi entregar a Educação à
Igreja.” Recorda que a professora batia-lhe quando ele não ia à missa: “O ambiente da Igreja,
o cheiro das velas, dava-me uma fome...”
Opina que as religiões sustentam o medo e cita Tales de Mileto para explicar que a maneira
de o combater é através do conhecimento: “A felicidade do corpo consiste na saúde e a do
espírito, no saber.”
Com uma varinha mágica, tentaria realizar “o desejo mais profundo: as pessoas serem
sinceras. Hoje, há muita hipocrisia.”
John Payliss
Nasceu em Lymington no Reino Unido, em 1965

John viveu na cidade onde nasceu até se mudar para Portugal, há cinco anos. Estudou até
aos dezasseis anos e o primeiro emprego que teve foi num talho. Depois começou a
trabalhar como jardineiro, profissão que manteve até até decidir vir para cá: “Inglaterra
estava a ficar cheia de prédios, eu não gostei do que estavam a fazer.” Começou a procurar
um lugar alternativo.
Conheceu Portugal nos anos 90, numa viagem de férias. Repetiu a viagem três vezes e, à
quarta vinda, decidiu ficar. Vendeu a casa em Inglaterra e mudou-se. Desde essa altura, só
regressou a Inglaterra uma vez. Gosta de viver no Algarve porque “as pessoas são muito
amigáveis e é um país solarengo. Sendo jardineiro, eu gosto do sol.”
Trouxe o cão que tinha, com catorze anos, mas ele morreu. Agora tem a Zena, uma cadela
de cinco anos: “Andei à procura de um lugar para viver durante um ano. Queria um lugar
com um jardim para ter um cão. Nunca tive terra antes.”
Vive numa casa móvel num “camping site”: “Eu comprei o lote onde está a caravana. Posso
ouvir os pássaros a cantar, é adorável. Eu fiz o meu próprio jardim lá, parece um oásis.”
Fala com o irmão e a irmã todas as semanas, mas não planeia voltar. De Inglaterra, a única
coisa que sente falta é o “Fog Horn”, o som emitido pelos navios, anunciando a chegada do
nevoeiro: “Era um som que ouvia desde pequenino. Ouvia quando estava na escola.”
Às segundas e sábados, percorre um caminho de quinze minutos de bicicleta para ir
trabalhar na Carlota Charity Shop, ou, em português, Cadela Carlota, uma associação de
proteção de animais e loja de caridade em Almádena, que promove a adoção de cães e
gatos e vende roupa e outros artigos usados. “Costumava vir aqui buscar livros para ler, e uma
 senhora que trabalha cá convidou-me”, conta. Na loja, tem tido oportunidade de
conhecer muita gente da terra e muitos turistas que entram de passagem.
Se tivesse uma varinha mágica, desejaria “viver junto ao mar. Mover a minha casa para junto
do mar. O som das ondas é calmante. Eu queria morar num sítio novo e consegui. Quem
sabe?..."
Elsa Craveiro
Nasceu em Portimão em 2000

Elsa decidiu aprender maquilhagem numa escola particular em Faro, após ter terminado o
décimo segundo ano: “Eu gostava de maquilhagem. Depois, como aquilo acaba por não ter
uma grande saída, deixei um bocado de parte. Passados uns tempos, fui fazer a formação de
unhas em 2020, em Vilamoura.” O pai apoiou a ideia e financiou o novo curso.
Enquanto foi fazendo as formações, trabalhou numa tabacaria de um supermercado na Praia
da Luz, entre 2018 e 2022. Terminada a aprendizagem, continuou na tabacaria e começou a
trabalhar em casa, arranjando unhas.
Em 2021, teve uma filha e ainda se manteve na tabacaria por algum tempo, mas a manicure
levou a melhor: “Optei por vir embora. Já não conseguia dar vazão às clientes que tinha”. As
clientes aparecem do “boca a boca”. As estrangeiras chegam através do Instagram.
Aparecem “algumas pessoas da aldeia, poucas. Vêm muitas clientes de fora. Vêm de
Portimão, Sagres e Vila do Bispo. A maioria são portuguesas. Desde que comecei a trabalhar
tenho estado sempre por aqui.”
Vive na terra que a viu crescer, Almádena, na casa dos pais, com a filha, que, diz, “tem muito
mimo”. Camila, assim se chama, tem três anos e frequenta um infantário em Budens. Revela
que “é muito difícil arranjar vaga.”
Elsa confessa: “A minha prioridade é arranjar uma casa.” A dificuldade está em conseguir um
empréstimo. Gosta de ser independente e tem planos para o futuro: “A partir do momento
em que já tiver a minha vida organizada, queria arranjar um espaço para mim, para
trabalhar. Eu até gostava de ficar por aqui, até porque acabo por apanhar clientes um
bocadinho de todos os sítios”. Entretanto, está ligada a uma empresa online: “Tenho um
hobbyzinho: sou consultora de viagens. Os clientes vêm até mim, dizem-me que querem
viajar para algum lado e eu faço o acompanhamento todo”.
Se tivesse uma varinha mágica, “pedia uma casa, sem dúvida, uma casa. Quero ter a minha
independência, ainda mais com filhos... viver na casa dos pais é muito bom, mas ter o nosso
cantinho...”
Maria José Silva
Nasceu em Portimão em 1974

Maria José, conhecida por Zézinha, abandonou dos estudos no oitavo ano, aos dezasseis
anos. Viveu na zona de Bensafrim até se casar, aos vinte e cinco, quando se mudou para
Lagos. Trabalhou durante vinte e sete anos no Pingo Doce de Lagos, mas há sete anos
regressou a Bensafrim para cuidar do pai, que estava doente.
Aceitou um convite para vender peixe nas localidades vizinhas e, desde então, segue sempre
a mesma rota numa carrinha ambulante. Todas as manhãs, passa por Burgau, Espiche,
Almádena, Barão de S. João e Portelas. À tarde, trabalha numa casa particular. Este trabalho
 proporciona-lhe muitos contactos: “Sou muito comunicativa, gosto muito de falar. Os meus
 clientes são todos idosos, gente nova não come peixe. A maior parte das pessoas vive sozinha.
 Querem atenção. Contam-me tudo. Não aponto nada, lembro-me de tudo de cabeça.”
Em casa, cuida do cão dela e da cadela do filho, Zuki e Spoty: “Sou apaixonada por cães. Não
posso é adotar todos os animais que vejo...”
Zézinha tem muitas paixões: “Sou sonhadora, sou muito amiga de festas. Gosto muito do
Carnaval, de viajar, de comer, beber um vinho tinto, cerveja.” Faz habitualmente duas
viagens por ano: “Saio uma vez na Primavera e outra no Outono.” A lista dos locais que já
visitou é extensa: Madeira, Malta, Marrocos, Hungria, Alemanha, Holanda, França, Bélgica,
Espanha, Ilhas Baleares, Palma de Maiorca, Tenerife, Gran Canária, Inglaterra, Brasil... “Nos
Açores, são nove ilhas, só me faltam três. Já fui a muitos lugares e esqueço-me. Adorei
Londres. Paris é uma cidade que me encantou muito, tem muitos monumentos, muita gente,
as luzes...” Só não vai à Ásia, por medo: “É muito longe de casa.” No resto do ano, aproveita
os fins de semana para passear. Vai a “Silves, Monchique, etc.” e a festas. Quando o marido
não pode acompanhá-la, leva as amigas.
Tem uma atitude desprendida em relação ao futuro: “Não estou preocupada, não sou uma
mulher de planos. Acho que a vida pode mudar a qualquer momento.” Essa visão surgiu
após um grande desgosto: o irmão morreu num acidente de viação há vinte e três anos,
quando ela estava grávida de sete meses. “Mudou a minha maneira de ver a vida. É para ser
vivida. Aprendi a aproveitar a vida. Tenho pena de irmos para o outro mundo. Gosto muito
de viver.”
Questionada sobre o que faria com um varinha mágica, Zézinha diz: “Eu não pedia nada, só
viajar e conhecer o mundo, gosto muito de passear. As árvores é que nasceram para estar
no mesmo sítio."
Andreia Rodrigues
Nasceu em Bensafrim em 1987

Andreia formou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade ISPA, em Lisboa, e posteriormente
regressou à sua terra natal. O seu primeiro emprego foi no Zoo de Lagos, onde trabalhou
durante mais de um ano a tirar fotografias na entrada. Antes de exercer como psicóloga,
passou pela restauração e pela distribuição de encomendas. Entre 2014 e 2017, trabalhou
como psicóloga numa clínica em Vila do Bispo. Durante as folgas, dava explicações: “A mim
aborrece-me um bocadinho fazer sempre o mesmo. Um dia decidi. Despedi-me, aluguei um
espaço em Bensafrim e dediquei-me só a isto. Tenho um Centro de Explicações desde 2018.
No princípio fazia domicílios.” Agora também faz, mas só para quem não pode deslocar-se
ao Centro.
Sobre o trabalho na clínica, explica: “Não gostava do horário certinho das nove às cinco, nem
de trazer a carga da história das pessoas. Lidava com pessoas muito depressivas, com
crianças com ansiedade. Quando vemos que isso começa a afetar-nos internamente,
devemos fazer uma pausa.” Hoje, sente-se mais realizada: “Neste trabalho, sou muito mais
livre. Todos os dias são diferentes.”
O contacto com as famílias e as crianças é fonte de satisfação e crescimento: “Aprendemos
com os miúdos e com os pais. É um trabalho compensador: receber mensagens dos pais a
agradecer muito.” Sente-se especialmente recompensada quando ouve os alunos
exclamarem no final do ano: “Andreia, passei!”Além das crianças, Andreia tem outra grande
 paixão: os animais. É conhecida em Bensafrim pelos seus cinco cães, com os quais costuma
 passear: “Toda a gente me conhece aqui pelos cães.”
Sobre o local onde vive, destaca a tranquilidade e a proximidade com a comunidade: “É
calminho. Conheço toda a gente. Eu considero que aqui temos muito melhor qualidade de
vida do que em Lisboa.”
Se tivesse uma varinha mágica, diz: “Comprava uma casa nova. Apesar de ter uma nova,
gostava de ter uma maior."
José Luis tem estado ligado ao Estrela desportiva de Bensafrim toda a sua vida: “Vi nascer
este clube, casei aqui em 1982.” Lídia, a sua parceira de sempre, tem-no acompanhado na
dedicação ao clube, ajudando nas atividades que aí são desenvolvidas.

Lídia Rio Vieira
Nasceu em Bensafrim em 1962

Lídia começou a trabalhar com dezasseis anos no salão de cabeleireira Ester, em Lagos.
Frequentava o nono ano quando a morte do pai a obrigou a sair da escola. No princípio,
“não recebia. A patroa dizia que eu tinha de lhe pagar para ela me ensinar.” Quando saiu,
“quatro anos depois, recebia cinco contos, um terço do ordenado mínimo. Tinha que andar
fardada e maquilhada." Na época, vivia com a mãe, que trabalhava no campo e tinha uma
pensão de viuvez muito pequena. Casou tinha vinte anos e foi viver com os sogros e os avós
do marido. Teve o único filho no ano seguinte: “Tinha uma casa pequenina, não tinha casa
de banho, não dava para ter filhos.”
Tem sido cabeleireira toda a vida: “Trabalho nisto há quarenta e seis anos.” Ao longo desse
período, andou de salão em salão e chegou a trabalhar em casa. Abriu o salão atual em 2020,
no princípio da pandemia. Paga uma renda de custos reduzidos e está satisfeita: “Aqui é que
eu estou bem.”
A clientela vem de longe e de perto. Corta o cabelo a toda a gente na terra e diz que ainda
trabalha por causa das clientes: “As minhas velhotas estão todas com noventa anos, oitenta
e tal. Quero ver se aguento enquanto elas cá estiverem. Tenho clientes desde o princípio.
Morreu uma com noventa e sete anos há dias. A cliente era família, ia às mortes de porco
que os meus pais faziam. Custa ver as pessoas desaparecerem.” Tem “uma cliente com
noventa e nove anos, outra com cem anos e outra com cento e um.” No dia de folga, vai à
casa de dois ou três clientes que não podem deslocar-se ao salão.
Os muitos anos de prática trouxeram-lhe tendinites, que ela tenta contrariar com visitas
regulares ao osteopata.
Questionada sobre o que faria com uma varinha mágica, diz: “Eu não sou exigente. Eu quero
ficar em casa e passear, fazer um cruzeiro. Gostava de fazer voluntariado no Estrela
Desportiva quando me apetecesse. Adoro passear de avião, de barco...Todos os anos ia a um
sítio diferente”.

José Luis Rosário Vieira
Nasceu em Bensafrim em 1958

José Luis conta: “Assisti à visita do Sr. Marcelo Caetano em 1969. Nessa altura rolou o filme
feito por americanos. Vieram filmar aqui, pela igreja e pelas estruturas antigas que faziam
lembrar os saloons dos filmes de cowboys. Foram buscar os soldados do exército e nós
éramos os figurantes. Tínhamos os fatos de padeiros, brancos. Foram buscar os miúdos ali à
escola. Recebemos cinquenta escudos cada um. A vinda de uns vinte soldados, estar a viver
o filme, as luzes, teve um grande impacto.”
O pai e o avô eram corticeiros, apanhavam medronho e produziam aguardente: “Na nossa
casa havia sempre codornizes, coelhos, lebres.” Relembra esse tempo de criança com
grande emoção: “Os meus netos têm uma boa infância, eu ainda tive melhor. O meu pai
nunca me castigou. As pessoas eram livres; a única preocupação era sobreviver. Abalávamos
em grupos, íamos para os montes e serra. Íamos tomar banho nos pegos, íamos às irós.
Agora era impensável. A liberdade era mesmo pura. Antes do anoitecer começávamos a
ouvir as mães a chamar. Chegava àquela hora, era o silêncio. Eu nasci na melhor altura de
passar pela terra, de passar pela vida. Quase que não havia nada, mal passava um carro,
plástico não havia. As pessoas esperavam pela feira anual para fazer as compras. Os
alguidares eram consertados com agrafos. Vivi o melhor tempo que se pode viver.”
Saiu da escola na quarta classe: “Trabalhei aí por fora... na pastelaria mais antiga de Lagos
Amélia Taclin, um ano ou dois. Ia buscar encomendas à estação. Pagava-me o passe da
camioneta, cinquenta escudos por mês e o almoço. Era uma senhora, tratava-me muito bem.
Ia fazer compras à velhota e eu ficava com o troco.”
No 25 de Abril, ficou desempregado e foi para a casa de uma tia no Feijó. Em Almada,
concluiu o primeiro ano do ciclo. Regressou com dezanove anos. Trabalhou nas gruas do
porto de abrigo de Sagres e, mais tarde, numa fábrica como polidor e decanteiro. A seguir
foi para a câmara municipal e lá permaneceu trinta e cinco anos. Trabalhou nas estações
elevatórias, nos esgotos e depois na água de rede até se reformar, aos sessenta e três anos.
Agora é o presidente do Clube Estrela Desportiva de Bensafrim: “Quando eu pensava que
vinha para casa e vinha descansar, vim para aqui.” O clube é recreativo, cultural e desportivo,
mas começou com o futebol: “Quisemos formar uma equipa. Juntámos um grupo de malta
nova. Precisávamos de equipamento, recolhemos ajudas e conseguimos o equipamento.”
Conseguiram uma sede numas habitações de madeira que vieram na altura do sismo, para
as pessoas que não tinham casa. No 25 de Abril, ocuparam uma casa para criar uma nova
sede: “O dono era contra, mas com o tempo até se juntou a nós.” Ficaram lá uns cinco ou
seis anos. Pediram um terreno à junta e “o pessoal juntou-se todos os fins de semana e
vinha construindo. Cada um fazia aquilo que sabia. Só se trabalhava da parte da manhã.
Fazíamos umas grandes almoçaradas.”
O clube tem promovido “petanca, teatro, motas, futebol, marchas. Temos quatro campeões
nacionais de petanca e pessoas novas, cerca de trezentos miúdos a fazer desporto,
seiscentos e tal associados; pagantes são trezentos.” As marchas foram recuperadas há dois
anos e ocupam cerca de cinquenta pessoas: “as letras e músicas são feitas por miúdos daqui.
Pelas marchas conseguimos ver que as pessoas gostam de vir.”
O teatro “vem quase do início do clube, começou há quarenta e um anos”, mas deixou de
haver “há cerca de seis anos. Morreram os comediantes, depois o eletricista. Tentaram
recomeçar, morreram mais duas pessoas.” Diz que “gostava de ver o teatro a andar. O gozo
que dá os ensaios... é tão bom fazer teatro. Gostei mais de fazer teatro do que jogar futebol.
Tem mais adrenalina; antes de entrar em cena dá uma impressão no estômago.”
Agora pretende sair da direção do clube para tratar de “couvinhas, tomatinhos... Tenho os
netos ainda. Deixei muito de curtir os meus netos por causa disto.”
Se tivesse uma varinha mágica, faria “obras de renovação na sede do clube em termos de
eletricidade e canalização da água. A gente já começou a ter problemas."
Manuel e Albino são pai e filho. Albino casou aos trinta e um anos e foi viver para as Portelas,
mas manteve-se próximo da família: “Venho aqui todos os dias porque tenho cá o meu pai,
tenho irmãos, gosto de saber como ele está. Já está no lar.”

Albino Santos
Nasceu em Bensafrim em 1958

Albino concluiu o nono ano na Escola Industrial de Lagos. Depois,“fiquei a trabalhar no
campo com o meu pai até ir para a tropa”, em Tavira. Gostou da experiência: “Fui para o
hospital veterinário militar em Lisboa. Tirei um curso veterinário a seguir ao 25 de Abril e,
por isso, tinha o cartão do curso de pecuária. Em Tavira não tinham vaga para cuidar dos
animais. Em Lisboa fazia de enfermeiro dos animais.” No regresso, voltou a trabalhar com o
pai: “Sempre gostei da vida com os animais, do trabalho no campo.”
Trabalhou num parque de campismo, numa fábrica de cortiça e, por fim, “na Adega
Cooperativa em Lagos até aquilo fechar. Estive lá trinta anos. Gostava da Adega. Fazia de
tudo: ajudava a fazer o vinho, lavava, fazia a distribuição... era tudo o que calhava a fazer,
até destilar o bagaço. Fechou em 2010 e estive no desemprego.” Fez distribuição de pão
durante três anos. Ficou desempregado novamente: “Reformei-me. Tenho umas galinhas,
coelhos, umas alfaces, salsa, hortelã, coentros...”
Tem um filho, uma filha, um neto e uma neta: “Domingo é sagrado, passam comigo. A minha
Alice vai logo para o quintal brincar com os pintos. Eu ensino ao meu neto o falar algarvio, os
dizeres antigos.”
Fez parte do grupo de teatro do Estrela Desportiva de Bensafrim durante muitos anos:
“Primeiro fizemos um rancho folclórico. O teatro começou com o Jorge, um senhor de Lisboa
casado com uma senhora daqui. Tinha muito jeito para escrever e arranjou uns atores... O
primeiro teatro que fizemos foi antes de eu ir para tropa, tinha uns dezassete anos. Era no
armazém do sr. José António Alves. Era tudo moços novos: malta de dezassete, dezoito anos.
O mais velho tinha uns trinta. O senhor Jorge era o encenador. Nos anos 80 e 90 juntaram-se
mais pessoas.” Faziam teatro de revista: ”Era tudo só para rir.” Lembra-se da peça do
mecânico: “Era eu e o Zé Gato. Quando eu me perdia, o meu colega entrava com a deixa
dele. Eu gostava muito de trabalhar com ele. Tínhamos peças giras, giras, giras. As pessoas
adoravam ver aquelas coisas. Corríamos as coletividades quase todas do Algarve.”
Na última peça que organizaram houve problemas de saúde e perderam o ânimo: “Morreu
uma rapariga, já tinham morrido três, depois morreu outra. Eram todas pessoas novas... as
pessoas têm pena. Deu muita vida aqui a esta sociedade.”
O Rancho acabou mais cedo, há uns vinte anos: “A malta nova começou a ir para tropa, os
mais velhos tinham outra vida. A malta nova aborrecia-se... não tinham tempo para essas
coisas. Tenho pena que o rancho tenha acabado.”
Recorda com saudade os tempos de infância: “Eu conheci as minhas bisavós. Tenho ainda o
gosto de certas comidas da casa da minha avó, do fogo da lenha... azeitonas da morte de
porco, cenouras cozidas com cebolada fritada no azeite, temperadas com tomilhos, azeite,
vinagre, azeitonas britadas. Quando eu saia da escola já a minha mãe estava com as vacas
para eu cuidar. Pão com banha era a merenda.” As reuniões nas mortes de porco eram
especiais: “Eu gostava tanto... juntava-se a família... ai, belos tempos... a gente, moços
pequenos. No inverno, a gente punha-se de volta do fogo a contar histórias de bruxas e
lobisomens. Era uma criação mais bonita!”
Se tivesse uma varinha mágica, “pedia paz para o mundo, que houvesse parede para toda a
gente, que toda a gente tivesse uma casinha. Que as pessoas fossem mais educadas, houvesse
 mais respeito pelos idosos. Hoje vejo malta nova dizer coisas aos pais que eu não  conseguia.”

Manuel dos Santos
Nasceu em 1935 em Bensafrim

Manuel fez o exame da terceira classe em Bensafrim, numa época em que ainda “havia a
escola dos meninos e a das meninas.” Casou aos vinte anos. Teve quatro filhos e uma filha.
Trabalhou toda a vida no campo. Era criador de vacas e vendia leite de porta em porta: “As
bilhas iam na mão.” A mulher ajudáva-o: “Ia vender leite a Lagos, ia de camioneta.”
Vive no lar de Bensafrim há cinco anos e gosta de estar lá, mas sente saudades do trabalho e
do tempo em que “ia buscar carradas de comida para as vacas à barragem.”
Estranha que lhe perguntem o que faria com uma varinha mágica: “Agora??... Pedia era
saúde para ir vivendo o resto da minha vida."
Almerinda Bárbara
Nasceu nos Montinhos da Luz em 1933

Almerinda viveu em Almádena e Barão de S. João quando era criança. Estudou até à terceira
classe e, no ano seguinte, esteve muito doente, “três meses com febres intestinais.” Por isso,
não foi à escola. No ano seguinte não teve escola porque não havia professora. Nessa altura,
o pai decidiu que ela “devia ir cuidar das vacas, da burra e dos porcos” no terreno onde ele
trabalhava: “o dono tinha muitas fazendas. O trabalhador ganhava um quinto, era o
quinteiro, tomava conta de tudo. As vacas iam à parte. O meu pai lavrava e eu andava atrás
do arado a semear favas, ervilhas, milho, grãos. O dono do terreno era o meu padrinho.
Tinha cinco quinteiros, era muito rico. Era de Almádena. Tinha cavalos.”
Trabalhou com o pai até casar: “Com dezasseis anos, comecei a namorar o meu marido.
Casei com dezanove.” Veio viver para Bensafrim nessa altura. Aos vinte e um teve o primeiro
filho, depois teve outro e, a seguir, duas filhas. Ficou em casa a cuidar dos filhos. O marido
morreu em 2004: “Era trabalhador e poupado. Sempre fomos muito amigos.”
Ela trabalhou na monda do arroz no Alentejo, no Hotel Golfinho, numa máquina de passar a
ferro e no restaurante Cidade Velha, em Lagos, como ajudante de cozinha. Veio para casa
com cinquenta anos.
Na terra, era conhecida por fazer benzeduras: “Era nova, tinha os meus filhos, comprei um
livro de benzeduras e benzia as crianças. Hoje já não tenho. Emprestei e não mo deram mais,
mas eu já sei de cor.” A vizinha começou a pedir: “Algumas pessoas iam à minha casa -
Benza aqui o meu menino - Hoje já não vão muito.”
Sempre gostou de costurar: “Quando era solteira, havia bailes de carnaval. O meu pai era
muito amigo de dançar e sabia tanta coisa... - Ó filha, então e se fossemos para o baile
representar? - Eu aprendi logo os versos. Fiz uma saia para mim e um colete todo
bordadinho, com treze anos. Quando eu casei, a minha mãe fazia tudo à mão. Eu dizia ao
meu marido: - Vamos comprar uma máquina de costura.” Compraram-na em Lisboa e ela
aprendeu sozinha: “Descosi as calças velhas que o meu marido tinha, passei a ferro e copiei
o molde. Fazia roupa para a família toda.” Agora, com seis netos e quatro bisnetos, ela
continua a costurar para eles: “Gosto de estar entretida, faço as minhas bonequinhas. Tenho
feito muitas para as minhas netas.”
Passeia muito através do Inatel: “Ia com o marido para as termas, mas ele não gostava de
viajar”. Começou a sair mais depois de ele ter morrido. A primeira viagem foi para Itália.
Tirou uma fotografia ao Papa e tem-na em casa. Já esteve em Marrocos, Holanda, Luxemburgo:
 “Fui andar de camelo uma hora na Tunísia.” Gosta da aventura: “Eu nunca tenho medo, sou
 afoita.”
No resto do tempo faz costura, tricô e visita as filhas: “Passo os dias em minha casa, todos os
dias, sempre sozinha. Saio de casa, não vejo ninguém. Devia haver uma casa para pessoas da
minha idade, com bailaricos, anedotas...”
Se tivesse uma varinha mágica, “pedia para ter cá os meus filhos”, confessa com lágrimas
nos olhos. “O mais pequenino, com dois anos e meio, morreu atropelado na estrada. O outro
morreu em 2018, num acidente de trabalho."
José Ernesto Duarte Barbudo
Nasceu em Bansafrim em 1973

José Ernesto é um aficionado de petanca bem-sucedido: “Já ganhei três taças de petanca.
Fui duas ou três vezes campeão regional. Fui vice-campeão nacional de dupletes.” Gosta do
“convívio, do desporto em si. É o passatempo, o lazer nove meses, todos os fins de semana
com provas oficiais.” Começou a jogar petanca em 2000, 2001 “através de um senhor de
Lagos com muitos anos de petanca, o senhor José Matias. Jogávamos malha e, com esse
senhor, conheci a petanca. Começamos a jogar aqui no povo, a brincar, a praticar. Em 2003,
com a ajuda desse senhor, fiz a inscrição para termos o clube no campeonato de petanca do
Algarve. Agora está no regional, nacional e alguns internacionais.” O clube onde pratica é o
Estrela Desportiva de Bensafrim e tem estado ligado ao mesmo e ao associativismo desde os
dezoito anos de idade. Fez parte de várias direções e chegou a ser presidente por dois anos.
Explica que “a modalidade tem crescido na terra” e no país: “Existiam cerca de quatrocentos
inscritos a nível nacional em 2002, 2003, agora anda perto dos dois mil. Já há muitas
mulheres e muitos miúdos a competirem. A malha é mais praticada a nível concelhio. A
petanca está mais espalhada pelo país.” Aprecia o facto da modalidade lhe permitir
conhecer muita gente nas competições a nível nacional.
Revela que gostava de ver melhorias no Estrela Desportiva: “Faz falta uma área coberta para
o clube fazer eventos e espetáculos.” E, na povoação, “faltam os serviços de correios, centro
de saúde, banco...” Manifesta estranheza pelo facto da elevação de Bensafrim a vila, em
2009, não ter trazido benefícios.
É solteiro e vive sozinho. Do lugar onde nasceu, gosta “das pessoas, o convívio, o ambiente”.
Em novo, completou os estudos até ao nono ano. Trabalhou como mecânico em Lagos
durante vários anos e, mais tarde, foi trabalhador independente. Neste momento, está
desempregado e à procura de trabalho.
Se tivesse uma varinha mágica, pedia para “arranjar um trabalho, para ter uma vida mais
estável”.
Giselle Rodrigues
Nasceu na Ilha de S. Vicente em Cabo Verde em 1992

Giselle veio sozinha para Portugal, com dezasseis anos, porque ganhou uma bolsa de estudo
e “queria dar melhores condições à família”. Os seus pais fizeram questão de ensinar os
nove filhos a ser independentes: “Desde os oito anos que nos preparam para o mundo.” A
família “ensinou a cozinhar, a limpar a casa, lavar a roupa, ir a locais públicos para tratar de
documentação.” Tem uma irmã quatro anos mais nova, que ajudou a criar “até vir para cá” e
uma irmã que reside em Lisboa. Dois irmãos já faleceram. O irmão mais velho “foi baleado aos
 dezoito anos. Estava a prestar serviço militar e foi encontrado morto”. Suspeitam que tenha
 sido uma vingança.
O pai apoiou a vinda porque ele estudou na Universidade de Lisboa Contabilidade e Jurismo
e “sempre gostou de Portugal. Considerava que era um local tranquilo e que permitia abrir
portas no nosso país, pelo menos em relação aos estudos, para ter um bom emprego em
Cabo Verde.”
Ela completou o curso Técnico de Comunicação, Relações Públicas, Marketing e Publicidade
na Escola Profissional de Odemira, que dá equivalência ao décimo segundo ano, e foi
estagiar numa clínica de fisioterapia. A seguir, estagiou como relações públicas no mesmo
estabelecimento onde estudou. Trabalhou na restauração em Odemira e S. Teotónio, depois
em Lagos durante sete anos. Foi governanta. Mais tarde, abriu uma empresa de construção
civil, a Inedit Instruction, que funcionou ano e meio. Entretanto, foi modelo de passarela
num evento e fez uma formação em contabilidade e fiscalidade em Portimão.
Este ano, estagiou na Junta de Freguesia de Odiáxere. Enquanto lá esteve, confidenciou:
“Chega muita gente simpática. Eu gosto de pessoas que conversam, perguntam como eu
estou e eu pergunto-lhes o mesmo.” Chegam “idosos que dizem que se sentem sozinhos. Eu
gosto de escutar e aconselhar. Eu sinto que as pessoas se sentem bem tratadas, acolhidas, e
saem de cá felizes com o meu atendimento.”
É casada, tem um filho de onze anos, uma filha de seis e “uma cadelinha chamada Bela”. O
marido, que é brasileiro e vive cá há vinte e cinco anos, ”já nem tem sotaque”. Compraram
casa e mudaram para Odiaxere em 2024 porque, diz: “Queríamos um lugar tranquilo, calmo.
E queríamos uma casa, não um apartamento, com varanda e quintal, para ter um animal,
que é o sonho dos meus filhos. Queríamos que o cãozinho tivesse condições.”
No futuro, projeta abrir um restaurante com o marido ou seguir o seu sonho: “Queria fazer
direito para trabalhar na conservatória do registo civil.” Nos tempos livres, gosta de
“fotografar espetáculos, paisagens e a lua.”
Se tivesse uma varinha mágica, “eu queria voltar a ver a minha mãe e o meu pai, queria
abraça-los e dizer - Obrigada, mãe e pai, por tudo - Hoje sou o que sou graças a eles. Tudo o
que me ensinaram, a educação, o amor, o respeito pelas pessoas.” A última vez que esteve
com os pais foi há quinze anos. O pai morreu em 2023.
José António Bandarra dos Reis
Nasceu em Odiáxere em 1952

José António nasceu em casa, na rua 6 de Outubro: “Na altura, não havia nomes de ruas, só
depois do 25 de Abril.” Começou a trabalhar na farmácia Silva com doze anos e, até aos
"dezasseis, dezassete, era dispensado porque tinha aulas à tarde, até às 21h”, na Escola
Industrial de Lagos. Frequentou a escola comercial até ao quarto ano, onde tirou o curso de
aprendiz de comércio, ao mesmo tempo que ganhava experiência como farmacêutico:
“Trabalhei trinta e quatro anos nessa farmácia. Lavava frascos, copos graduados, fazia
manutenção.” Aos dezassete anos começou a registar a prática de farmácia: “Primeiro era
aprendiz, mandarete. Com dezassete, dezoito anos, ajudante de técnico de farmácia. Aos
dezoito, dezanove, técnico de farmácia”. O diretor técnico ia avaliando o desempenho e
aprovava a passagem à nova categoria. Ganhou gosto pelo contacto com o público e guarda
saudades do “respeito e do carinho que tinham uns com os outros.”
Foi para a tropa com vinte anos: ”Ao todo, foram quase trinta e nove meses”. Passou por
Leiria, Coimbra e Lisboa. Tirou a especialidade de microscopia no Hospital Egas Moniz em
Lisboa, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Foi destacado para Angola em 1972. Lá, o
 seu trabalho consistia em “recolher análises para detetar as doenças tropicais nos militares
que regressavam. Estive sempre numa residência de saúde.”
Em 1974, regressou contrariado: “No 25 de Abril estava lá. Tivemos que sair quase à pressa,
já tinha trabalho lá e tudo. Depois da revolução, aquilo tornou-se complicado, era um pouco
perigoso. O nacionalismo começou a vir ao de cima nos africanos. De Angola só tenho
recordações boas. As pessoas lá eram fantásticas. Existia uma família entre a população civil.”
Fez muitos amigos africanos e não africanos: “o africano é muito amigo do seu amigo
quando tem confiança na pessoa.”
Escolheu o Xinicato para viver com a mulher. Teve um filho e uma filha. Trabalhou na
Farmácia Silva alguns anos. Para além disso, foi massagista de futebol no Clube Desportivo
de Odiáxere e no Clube de Futebol Esperança de Lagos. Os últimos anos como farmacêutico
foram passados na farmácia Lacobrigense, em Lagos, até se reformar, há uns 12 anos.
Em 2014, entrou na Universidade Sénior de Lagos e começou a ensinar cavaquinho: “Todos
os anos há pessoas que se inscrevem. É um espaço de lazer, ocupacional, para as pessoas
estarem entretidas. É uma forma de estar ocupado, arranjar amigos, conversar.” Aprendeu a
tocar viola sozinho, em Angola: “Quem sabe tocar viola, consegue tocar cavaquinho.”
Esteve envolvido na formação do grupo de cavaquinhos da Universidade, que, mais tarde,
foi dividido em iniciados e avançados. Nos últimos dois anos, ensaia regularmente com os
colegas tocadores do grupo sénior nas instalações do Rancho Folclórico de Odiáxere.
José António afirma que, se tivesse uma varinha mágica, “a única coisa que eu pedia era que
houvesse paz no mundo. A ambição dos Homens é terrível”.
Sofia Santos
Nasceu em Odiáxere em 1975

Na família de Sofia todos têm uma relação com o futebol. Ela é dirigente desportiva, quatro
filhos são praticantes e um é treinador, pois sofreu uma lesão e já não pode jogar. A
experiência dela começou quando um dos filhos entrou no Esperança de Lagos: “No início,
era a mãe de um atleta, acompanhava nos jogos.” Quando o filho se transferiu para o clube
de Odiáxere, “existiu uma oportunidade para criar condições para a formação de futebol
para crianças.” O marido entrou no clube em 2006 com o objetivo de “colocar relvado
sintético e criar condições para formar equipas de futebol.” Ele foi presidente do clube entre
2008 e 2012, e ela, secretária: “foi o início do futebol de camadas jovens.”
Em 2009, recebeu um convite para fazer parte da lista do PS: “Como não podia acumular os
dois cargos”, renunciou ao cargo no clube e passou a trabalhar na junta como secretária. Em
2016 a direção do clube quis entregar a chave à junta de freguesia. Sempre gostou da
coletividade, por isso, decidiu “apresentar uma lista e pegar no clube.” Foi eleita em 2016 e
tem sido a presidente até hoje. Explica que deu “continuidade à formação de futebol em
todos os escalões. Os trezentos e cinquenta atletas vêm do concelho de Lagos e de
localidades vizinhas, num raio de cinquenta quilómetros.” Além disso, o clube conta com
jogadores séniores e veteranos e, há cinco anos, iniciou o walking football com atletas
ingleses.
A maior dificuldade do clube “é a nível financeiro, as exigências são muitas: certificação da
AFA... Exigem muita coisa: pessoas credenciadas, formadores com formação, condições para
os atletas.” Por isso, a organização de marchas populares e a festa de Carnaval são
fundamentais, pois ajudam a arrecadar dinheiro para cobrir as despesas com o futebol. Além
disso, “as medidas do campo não correspondem às exigências, por isso, jogam no Estádio
Municipal de Lagos”, o que torna a “logística difícil.” Defende que o “clube tem de evoluir.”
 Ambiciona construir um novo pavilhão e desenvolver  outras atividades. No clube, conta:
 “Passei por uma das maiores dificuldades da minha vida  em 2020, durante a pandemia.
 Alugámos o espaço para uma festa de aniversário e o número de pessoas que apareceram
 ultrapassou muito o previsto. Foi necessário chamar a GNR.”
Tem tido uma vida preenchida. Estudou até ao décimo primeiro ano. Engravidou aos
dezanove e, depois do nascimento do filho, entrou no mundo do trabalho. Passou por uma
pizzaria, uma churrasqueira, pelo LIDL, por escritórios e pela receção de um hotel. No futuro,
planeia sair da direção do clube para ”fazer algo diferente. Gosto do que faço. Espero que o
universo me presenteie com outra coisa. Quero evoluir e aprender.” Ela espera encontrar
um “trabalho gratificante, em prol da sociedade.”
Se tivesse uma varinha mágica, “pedia condições a cem por cento aqui para o clube, para
que as pessoas que venham a seguir possam respirar."
Lurdes Rochato
Nasceu no Arão em 1944

Lurdes começou a fazer poemas desde pequena. Na sua terra natal, onde viveu até aos
dezassete anos, havia a tradição das desfolhadas. Enquanto as mulheres tiravam as camisas
das maçarocas, ela, com três ou quatro anos, tinha o hábito de ir para cima do milho
cantarolar. Herdou o dom do pai, que cantava e tinha jeito para as rimas, mas não sabia
escrever. Ela, por sua vez, aprendeu a ler e a escrever com uma professora regente, numa
sala onde as crianças dos vários anos tinham aulas todas juntas. Terminada a quarta classe,
foi trabalhar para o campo com os pais.
Com dezassete anos, começou a trabalhar na indústria conserveira em Lagos: “Ficava na
casa de um familiar.” Quando as sirenes soavam, deslocava-se à fábrica do Pimenta para
processar “atum, sardinhas, cavalas, carapaus. Ia e vinha...” Esteve lá doze anos.
Casou com vinte e três anos e mudou-se para Odiáxere. Quando saiu da fábrica, regressou à
trabalho no campo e dedicou-se à família. Agora tem um casal de filhos, um neto e três
netas, “tudo crescido.”
O gosto pelos versos levou-a a reunir um conjunto de poemas num livro que editou há cerca
de vinte anos: “Escreve-se aquilo que se gosta e aquilo que a vida traz. A inspiração nasce de
qualquer coisa.”
Se tivesse uma varinha mágica, pedia “a paz e o amor para todo o mundo.”
Luís Morgado
Nasceu em Odiáxere em 1967

Luís pertence ao Rancho Folclórico e Etnográfico de Odiáxere desde 1984: “Apareceu aqui
um grupo folclórico e eu aproveitei. Tinha dezassete, gostava de dançar, não era que
soubesse dançar... agora sei.” O rancho foi criado por ”pessoas que já tinham feito parte de
outro grupo. Vieram ensinar. A primeira atuação que fizemos foi na Quinta dos Aviões, em
Espiche. Foi uma surpresa, tínhamos tão poucos ensaios... mas saiu bem. Já há vinte e cinco
anos que sou presidente. Tenho a minha família toda aqui dentro: a mulher, os filhos. Tudo
isso segura a gente aqui.”
“O rancho nasceu dentro do clube de Futebol de Odiáxere.” Algum tempo depois, houve
divergências entre as duas coletividades e separaram-se. O espaço para os ensaios foi
 mudando, até existir uma sede própria: “A junta cedeu o terreno e nós construímos, há uns
trinta e tal anos.” A partir daí, começaram a criar um espólio: “Desde que temos esta sala,
começamos a juntar peças. É tudo original. Estávamos a pensar em fazer um museu.” Os
utensílios que recolhem refletem o modo de vida da freguesia, associados à agricultura e à
pesca, nos séculos XIX e XX. Têm também “as Maias”, bonecas grandes de pano feitas pelas
coletividades, a pedido da junta, e que expõem na rua no dia 1 de Maio. Contam com a
ajuda de duas costureiras para confecionar os fatos do rancho, de acordo com as regras
rigorosas impostas pela Federação do Folclore Português: ”Antes da pandemia, passámos a
ser federados. Quando não éramos, fazíamos o que queríamos.” A mudança trouxe “mais
convites para o estrangeiro. É muito caro. É impensável.” Mesmo assim, aproveitam para
viajar sempre que podem: “Estivemos em Espanha, França, Itália, Açores”. A nível nacional,
participam “todos os anos em três ou quatro festivais: Leiria, Porto de Mós... temos o apoio
da câmara, que nos dá autocarro”. Além disso, fazem permutas: “O grupo de lá oferece um
sítio para ficar.” Já conhece os ranchos todos.
As crianças do rancho encantam o público: “Metemos três miúdos pequenos, mais umas
mocitas. O mais novo tem três meses.” Mas há participantes de todas as idades: “Desde a
criação, estão lá uns dez elementos. Somos cerca de cinquenta e cinco pessoas”. Ainda
assim, são poucos, porque quando viajam, “muitos não podem acompanhar.” O Festival de
Folclore de Odiáxere, que se realiza na primeira semana de Agosto, é onde “praticamente
toda a gente participa. É lá em cima ao pé da Igreja e das tasquinhas. Coisas à antiga...”
Luís explica: “A minha preocupação são os pares, não temos homens suficientes, e a malta
nova dedica-se mais a outras atividades. O folclore não lhes diz muito. É uma tradição que
está a desaparecer.”
Fora da dança, estudou até ao oitavo ano e começou a vida de trabalho como servente de
pedreiro. Passou pela hotelaria, foi bagageiro, foi empregado de mesa e depois regressou à
construção. Tornou-se técnico de manutenção de piscinas e jardins: ”Dezoito anos num lado
e mais oito noutro. Há quase cinco anos que trabalho por minha conta”. Além disso, é
árbitro a nível distrital: “Era jogador. Deixei de jogar futebol e tirei o curso de arbitragem há
trinta anos, em Faro. Já passei pelo nacional. É uma paixão. Está lá o meu miúdo, há cinco
anos. Tem vinte e três anos, é árbitro”. Luís também tem um pé na política: “Sou presidente
da Assembleia de Freguesia há três anos. Vou a correr jantar e vou para junta. Tentamos
fazer pela terra, tentamos progredir.” No futuro, diz: “A junta é um caso a pensar. No rancho,
vou continuar.” O empenho pelo grupo transparece: “Faço mesmo por gosto.”
Se tivesse uma varinha mágica, desejava “que houvesse muita saúde para todos. Por causa
do bichinho que andou aí, tenho dois pares aqui que ficaram doentes com as vacinas."
Maria José cuidou da Igreja de Odiáxere e ajudou na procissão durante muitos anos. Agora,
o seu sobrinho-neto João segue-lhe os passos, continuando o trabalho que ela desenvolveu
com a mesma dedicação.

Maria José Altura
Nasceu em Odiáxere em 1938

Maria José ganhou encanto pela Igreja em criança: “Desde pequenina ia sempre à procissão.
Estreava sempre um vestido que fazia a minha mãe, ela costurava para fora. A procissão era
muito maior do que agora, vinha muita gente de todo o lado. As festas de Odiáxere tinham
muita fama, vinham camionetas de Lagos. Eu era uma pessoa muito atenta. Comecei a ver
como os padres faziam e eu acho que também foi uma vocação que eu tive.” Os estudos
 pararam na terceira classe: “Os meus pais tiraram-me da escola porque eu tinha que guardar
 os animais, os cabritinhos”. Começou a trabalhar cedo. A mãe “lavava roupa alheia, de
 senhoras de Lagos”. Explica: “Eu lavava com ela. Usava o dinheiro para me vestir e calçar. Até
 aos quinze anos, depois fui para a fábrica do peixe.”
O destino determinou que seria mãe solteira: “Aos dezanove anos namorei um rapaz ali da
Torre. As coisa não deram certo porque havia outra pessoa no meio e eu não soube. Ele
abandonou-me. Tinha o menino onze meses, ele casou com outra pessoa. Nunca mais quis
nenhum homem.”
Trabalhou em fábricas de conservas durante muitos anos, até ser operada: “Tive um
fibromioma, eu já não podia fazer os serviços que eu fazia antes, reformei-me por invalidez
aos quarenta e um anos. Vim para casa.” Durante alguns anos fez limpezas. Depois
trabalhou no lar da Mexilhoeira Grande, como vigilante de noite, durante cinco anos: “A
partir daí também já era muito cansativo. Não dormia lá e de dia também não conseguia
dormir.”
Na altura em que esteve no lar, começou a oferecer-se para tomar conta da Igreja durante o
dia: “Limpava, enfim, arrumava tudo. Ia abrir a porta, fechava, tocava o sino. Estava a servir
a Deus na pessoa da comunidade, dos irmãos. Tive mais de quarenta anos a dominar os
serviços da Igreja. Eu gostava muito desse trabalho. Tinha sempre flores para ir pôr água. Eu
ia para lá rezar, falar com Deus.”
Na Igreja, teve dois encontros inesperados. O primeiro foi com o homem que a tinha
abandonado quando engravidou, estava morto: “Já não estava tão bonito como era. Tinha
oitenta e dois anos, estava velhote.” Nessa altura perdou-lhe. O segundo encontro deu-se
passado pouco tempo. “Catorze meses depois morreu o filho que ele tinha tido com outra
mulher: ‘Era o irmão do meu filho.” A mãe dele apareceu na Igreja para o funeral: “Eu fui,
ela veio, abraçamo-nos. A partir daí nunca mais a deixei. Sempre, sempre juntas.” Agora
passeiam, foram a Fátima e planeiam outras viagens: “Vamos aos Açores em março.”
Há três anos, o apoio que dava à Igreja começou a pesar-lhe: “Agora está a cargo de três
senhoras. Passou para elas quando eu deixei. Eu disse que já não podia.”
O filho nunca casou: “Já tem sessenta e sete anos, viveu sempre comigo.” Com ela vive
também um sobrinho e um estrangeiro: “Tenho aqui um romeno, num quarto, há uns oito
anos. Trabalha na jardinagem, é boa pessoa”.
Sente que a procissão tem vindo a ser abandonada: “Já há dois anos que não sai o Pálio, por
não haver homens para o carregar.” Por isso, vê com bons olhos o esforço que o sobrinho-
neto faz para inverter a situação: “Tenho muito orgulho no meu sobrinho.”
Defende que a vinda de muitos estrangeiros é um dos fatores que tem contribuído para
enfraquecer a Igreja: “Antigamente, homens, mulheres, jovens, tudo fazia parte da Igreja.
Agora mais de metade dos habitantes não são daqui: uns brasileiros, muitos romenos,
ucranianos, moldavos. Essa gente é nova, tem outra vida. Não ajudam a comunidade.
Muitos têm religiões diferentes.” Contudo, considera que “são boas pessoas, muito
comunicativas. Toda a gente fala já a nossa língua.”
Se tivesse uma varinha mágica, “pedia para me manter nesta situação em que estou agora
por mais algum tempo, porque eu faço muita falta ao meu filho e à Igreja também. Porque o
meu filho viveu sempre comigo e é um homem muito mimado. Ele não está preparado para
a vida sozinho.”

João Pacheco
Nasceu em Odiáxere em 1987

João trabalha na empresa do pai desde que terminou o décimo segundo ano. O seu dia-a-dia
consiste em transformar mármores e granitos em material para cemitérios, cozinhas,
cantarias, lareiras e afins.
Juntou-se com a mulher aos vinte e três anos e agora vivem com os quatro filhos numa casa
alugada em Odiáxere. Arranjar habitação tem sido um problema: “Estive seis anos a viver em
Lagos e, agora, voltei. O arrendamento aqui é caro...”
Além de se dedicar ao trabalho na empresa do pai, João mantém uma forte ligação à Igreja,
que começou por influência da família: “A minha tia só tinha dois sobrinhos netos. Ela
sempre gostou que a gente viesse à catequese e à missa. No princípio, a gente só queria
brincadeira.” No segundo ano, começou a integrar-se no grupo de jovens da paróquia:
“Eram um pouco mais velhos. Fui ficando. Passei do grupo de jovens a tocador. A viola,
aprendi com um dos membros do grupo de jovens e o órgão, aprendi com as irmãs
franciscanas que estavam cá. Fiz a formação de acólito aqui. O grupo de jovens foi decaindo.
As vidas foram evoluindo, cada um para seu lado.”
Afastou-se por algum tempo: “Ainda estive uns dez anos sem cá vir. Como a minha tia
sempre esteve cá, convidou a gente para vir tocar numa missa cá na terra. No fim de semana
seguinte, convidou para a missa de entrega da chave ao novo diácono. Eu já era amigo dele
e acabei por ficar cá. Vou dando a ajuda que posso: preparar o altar, os cânticos para a
celebração do fim de semana, preparar os andores, pôr a carpete.”
Na sua opinião, a entrada do novo diácono há três anos fez diferença: “Quando cheguei cá à
Igreja, estava completamente nua. Estavam dez, quinze pessoas e, neste momento já
duplicou. Ele trouxe algo diferente. Ele é um rapaz novo, com uma visão diferente. Não é
aquela espécie de padre antigo que leva tudo à regra.”
Também voltou a participar nas procissões. Este ano pediu ajuda ao rancho para formar as
filas, porque tem havido falta de participantes e é necessária a força dos mais novos, quando
os mais velhos se cansam: “Já é o terceiro ano que faço outra vez. Fui eu que carreguei a
cruz no primeiro e segundo ano. Faz falta mais pessoas. Há muitas pessoas que querem
ajudar... são pessoas de certa idade, é muito tempo para carregar o andor.”
Outra novidade na sua vida foi a integração no rancho: “Quando me juntei com a minha
esposa, ela já era dançarina. Eu só entrei o ano passado. Como há sempre falta de alguém...
os filhos já andavam todos, só faltava eu.” A entrada no grupo começou com a birra de um
dos filhos, ele não queria dançar com a madrinha. João disse ao filho que o iria substituir: “A
partir daí, nunca mais me largaram. Eu já sabia mais ou menos como era aquilo.” No rancho,
“toda a gente se apoia, não há problemas com ninguém.” Agora, tem “a família família, a
família da Igreja e a família do rancho. As famílias estão todas ligadas.”
Se tivesse uma varinha mágica, usá-la-ia para transformar a Igreja, deixando-a “toda
impecável. Ficava tudo certinho, tudo bonito, sem humidades. Os altares tinham que ser
todos remodelados”. Não pedia nada para ele: “Eu gosto do que tenho. Eu gosto de
trabalhar para aquilo que quero. Detesto coisas de borla. Tem que se conquistar para aquilo
acontecer.”
Produção
Questão Repetida - Associação Cultural 
Apoios
 Direção-Geral das Artes
Câmara Municipal de Lagos
União de Freguesias de Bensafrim e Barão de S. João
Freguesia da Luz
Freguesia de São Gonçalo de Lagos
Algarve Informativo
Correio de Lagos
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